Ricardo Robles: o aluno para quem não havia presidentes na associação concorre a Lisboa

Aquilo fazia alguma confusão aos colegas. Afinal, quem era o presidente? Mas aquela associação de estudantes do Instituto Superior Técnico, da qual o bloquista Ricardo Robles fazia parte, tinha uma direcção colectiva, não havia presidente. Na altura, o actual líder da bancada do Bloco de Esquerda na Assembleia Municipal de Lisboa estudava Engenharia Civil. Entrou em 1995, saiu cinco anos depois.

Aquela foi uma associação que pôs fim às praxes, preferiu fazer jogos e convívios com os recém-chegados, nada das práticas que os bloquistas continuam a rejeitar. Nessa altura, uma das grandes lutas era contra as propinas, mas o gosto pela política de Ricardo Robles manifestou-se muito antes. Na adolescência, no 8.º ano, já participava em protestos contra a PGA – a Prova Geral de Acesso à universidade.

Há muito que o nome de Ricardo Robles era avançado como o mais do que provável cabeça de lista do Bloco de Esquerda à Câmara Municipal de Lisboa, nas autárquicas. Mas só agora a candidatura começa a tornar-se oficial: nesta quarta-feira à noite, os militantes da concelhia de Lisboa deram-lhe luz verde para arrancar. Para concluir o processo, falta a ratificação dos militantes da distrital de Lisboa, o que deverá acontecer no final da semana.

protagonismo crescente na Assembleia Municipal de Lisboa: deputado em 2009, em regime de rotatividade; eleito em 2013.

É uma voz crítica do mandato de Fernando Medina, em vários aspectos: transportes, creches, habitação. Estas serão seguramente algumas das prioridades que assumirá na corrida à autarquia: mais linhas nos transportes públicos, mais território abrangido, horários mais alargados. Outra das bandeiras será a habitação: fazer com que as pessoas vivam no centro de Lisboa e não tenham de ir para a periferia por causa do valor das rendas.

A bloquista Helena Pinto, que fez “muito trabalho” com ele nos bairros sociais de Lisboa, não tem dúvidas de que Robles conhece os problemas da cidade. Volta e meia, a também vereadora na Câmara de Torres Novas liga-lhe para falarem sobre política local: “É competente, preocupa-se com os assuntos e documenta-se muito bem. E tem características pessoais às quais dou muita importância. Não é só a competência e a forma como aplica os conhecimentos. Consegue estabelecer relações empáticas com as pessoas, com pessoas que não pensam como ele. Isso em política faz muita falta, sobretudo na política local.”

Apesar de viver em Lisboa, Ricardo Robles nasceu em Almada. Foi ainda criança para os Açores, para a ilha de Santa Maria – o pai era militar e foi destacado para lá. Viveu ali dos seis aos 10 anos, brincava na rua até tarde. Os pais, não sendo militantes, contribuíram para que fosse de esquerda.

Com 10 anos, muda-se para o concelho do Seixal, onde fez o resto dos estudos até ir para o Técnico, em Lisboa, estudar Engenharia Civil. Era bom aluno a Matemática e Física. Hoje é engenheiro civil por conta própria – perito qualificado pela Adene – Agência para a Energia, faz avaliações energéticas de edifícios, verifica se são ou não eficientes e faz propostas de melhoria.

Uns calções, Copenhega e América do Sul

O facto de Robles ser especialista em eficiência energética de imóveis conta, no que toca a cidades e autárquicas, para o bloquista Francisco Louçã: “Os temas da eficiência energética, dos transportes e da habitação são muito importantes.” Ricardo Robles vai conseguir um bom resultado? Para o ex-líder, “será um bom vereador” que apresentará “alternativas técnicas e políticas” em várias áreas. Se é muito novo? Louçã lembra que se disse o mesmo da bloquista Mariana Mortágua que, afinal, destacou-se como deputada.

Francisco Louçã conheceu Ricardo Robles quando este era aluno do Técnico, lembra-se dele como activista de muitas causas. Em 1997, o jovem participa mesmo na candidatura autárquica Esquerdas Unidas por Lisboa (coligação PSR/Política XXI). “É das pessoas que conheço que tem mais capacidade de motivar os outros, ouvi-los, de criar relações de amizade e ambientes informais”, conta ainda o ex-coordenador.

Informalidade, aliás, recordada também pela rapper Capicua que o conheceu na adolescência, na SOS Racismo e no PSR, iam os dois para os acampamentos de jovens. Lembra-se de Robles andar sempre de calções, fizesse chuva ou sol, fosse Verão ou Inverno. “Nunca tinha frio!”. Agora mais séria: “Sempre foi muito empenhado e activo politicamente”.

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Em Copenhaga, onde fez Erasmus, Ricardo Robles aventurou-se num projecto de investigação sobre desenvolvimento sustentável, cruzado com a Engenharia Civil. Em causa, estava a reabilitação de um quarteirão no centro da cidade. A ideia era transformar edifícios pouco eficientes do ponto de vista energético em espaços sustentáveis e de baixo consumo. Os habitantes envolveram-se nas decisões: definiram, por exemplo, como queriam usar os logradouros. Transformaram-nos num espaço que pudesse acolher festas, feiras de objectos usados, um parque infantil, uma lavandaria colectiva.

O membro fundador do Bloco de Esquerda e dirigente da organização concelhia de Lisboa desde 2005 esteve em Génova em 2001 nos protestos contra a reunião do G8, quando o jovem manifestante Carlo Giuliani foi morto. Esteve no meio daquela tensão com outros bloquistas com quem fez a viagem de autocarro. Chegaram à cidade, viram a polícia nas ruas, os carros incendiados, as colunas de fumo.

Também esteve nos fóruns sociais europeus de Florença (2002), de Istambul (2010) e no Fórum Social Mundial de Porto Alegre, em 2003. Programou, aliás, a viagem de três meses que fez pela América do Sul para poder estar em Porto Alegre. Passou pelo Equador, Peru, Bolívia, Argentina, Uruguai. Agora, será na corrida à Câmara de Lisboa que vai tentar chegar mais o mais longe possível.



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